Aqueles meninos cantavam, gritavam, bebiam, fumavam, sem se importar, como se fossem só eles naquela rua, naquele bar. Felizes sim, mesmo com os olhares de desaprovação, uma felicidade de que ainda vão sentir falta. Eu, compartilhando a mesa com eles, rindo e rindo, de repente acordo e me pergunto onde estive nos últimos anos. Tentando juntar meus cacos poderia ser a resposta, me colando tal qual um vaso bem mal remendado. Eles lembraram-me pessoas de outras épocas, conhecidas pessoalmente, ou de algum livro, distantes agora, lembraram-me fatos já idos. Suas músicas me apertaram a garganta, eu as tinha ouvido em outro contexto, outras vozes as cantavam, a cena era outra. Ria e ria, mas também queria chorar. Algo veio à tona, algo esquecido, vivo. Falando assim pareço uma velha saudosa e nostalgica, não sou. Tenho quase a mesma idade deles, um ou dois anos a mais. É que certas coisas me pesam: a maneira como o tempo e a vida brincam com a gente. A imagem que vejo no espelho todas as manhãs, o que fizeram de mim, o que eu me fiz, a menina tão séria, quieta, responsável e exemplar me irrita, eu às vezes a odeio, ela me aprisiona. Não quero mais ela, posso inventá-la diferente?
03/11/2009
14/10/2009
Já falei sobre mim para outras pessoas, poucas é verdade, mas falei. Com umas fui mais sincera, com outras menos, menti. Creio que me entenderam, ou tentaram, ou fingiram. Chamei algumas delas de amigos, nisso acertei e errei. Queria falar sobre mim, agora, para quem quer que fosse, o estranho é não conseguir. Nem ao menos através dessas palavras escritas, um desabafo que não confessa muito, não me alivia. Há volutas internas enquanto trago uma expressão serena na face. Se abro a boca, saem apenas fragmentos desconexos. Disfarço, invento frases, está tudo bem. Não digo minhas angústias, tão pouco as alegrias, sei de mim, só não sei dizer. Estou com medo de me afogar aqui dentro.
11/09/2009
Minha caligrafia deve chegar até a França, sobre esse envelope pardo, escrita em azul. Pequeno indício de minha existência, formal, impessoal, frio, não me revela. De mim ali, apenas o formato da letra, que poucos conhecem nesse tempo informatizado. Nunca remeti uma correspondência ao exterior. Ela vai, eu fico. A França é só imaginário, o que outros me contaram e mostraram, o que me permitiram saber. Talvez a França nem exista, é tão impalpável! Estarei algum dia na França? Ou em Senegal, Mongólia, Canadá, Cuba, Suíça, olho o mapa-mundi à frente ... Eu, que agora me encontro nesse pequeno cômodo, chuva mansa do lado de fora, sinto que sou pouco, muito pouco. O mundo real, mundo de fato, fora do imaginário, onde já pus meus pés, onde ponho os pés todos os dias: diminuto. Luta cotidiana e frenética para ampliar, ser mais. Por que? Querer tanto e poder tão pouco...
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